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O ovo de Páscoa |
| Oito mil toneladas. É tanta coisa que fica difícil imaginar o que significa. De asfalto, por exemplo, bastaria para pavimentar cerca de 73 km de estrada, como de Teresópolis a Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. De papel, dá para imprimir uns 19 milhões de exemplares de NOVA. E de chocolate é o que as fábricas brasileiras produzem para a Páscoa – todo esse doce, na forma de ovos e coelhos, é consumido em apenas uma semana!.
Bem verdade que não somos só nós que nos deliciarnos com ele. Agora mesmo, japoneses, americanos, bolivianos, chilenos e paraguaios estão festejando a Páscoa com ovos "made in Brazil". Exportamos nossos chocolates para todos eles, da mesma forma que, ao longo dos séculos, a própria Páscoa foi "exportada " pelos mais diferentes países, das mais diferentes culturas e crenças. Dentro das embalagens coloridas que as pessoas do mundo inteiro trocam todo ano, há bem mais que um presente gostoso: há uma das mais antigas – e intrigantes – tradições da humanidade. Você saberia dizer, por exemplo, por que o ovo foi parar com o coelho e se transformou em chocolate? Não se impressione se não encontrou resposta. Pouca gente conhece realmente a origem e o significado da Páscoa. Toda a historia é mesmo aparentemente contraditória. A começar pelo fato de a Páscoa ser a maior festa cristã – a comemoração da ressureição de Jesus – e possuir um passado pagão, de pelo menos 13 séculos antes de Cristo. Seus primeiros ancestrais foram chineses da Antiguidade. É dessa milenar civilização que "descende o ovo e a tradição de oferecê-lo na Páscoa. Só que, em vez de chocolate, o ovo era de pata, e a data comemorava a primavera, que acontece, no hemisfério norte, nessa época do ano. Para festejar em grande estilo o fim do inverno sombrio, os chineses incluíam no cardápio ovos de pata coloridos. Eram cozidos na véspera – a crença proibia que se acendesse fogo no dia da festa – junto com ervas que desprendiam tintas fortes, como a fruta do tojo (uma vagem que dava cor amarelada) e casca de cebola e beterraba (que os tingiam de vermelho). Esses são os antepassados orientais da Páscoa. Do lado ocidental, seus "parentes" mais remotos são os egípcios e os persas, que costumavam tingir ovos de aves em geral e dá-los de presente aos amigos, também em homenagem à primavera. Para os povos antigos, o inverno era um período duro, significava privação, falta de alimento. O primeiro verde que despontava na natureza representava a esperança de dias melhores, de novos frutos que começariam acrescer , de alimentos que brotariam e garantiriam sua sobrevivência. Enfim, a primavera significava uma nova vida, como, hoje, a Páscoa para os cristãos. E o ovo simbolizava esse renascimento – a ele eram atribuídos até poderes mágicos, de talismã. Na festa da primavera dos antigos povos eslavos, por exemplo, as famílias pintavam ovos de aves, desenhando símbolos das forças da natureza, como a Lua, o trigo, animais. Esses ovos decorados eram guardados em casa, como proteção contra maus espíritos, raios e tempestades; ou, então, enterrados nos campos, como pedido de boa colheita. Na verdade, há divergências sobre quem foi o "pai da idéia". Há quem atribua o nascimento da Páscoa aos povos nórdicos, de cultura mais recente que a chinesa, para os quais a estação quente também era o motivo da comemoração. Mas uma coisa é certa: a primeira Páscoa de sentido religiosa foi celebrada pelos hebreus, no século XIll antes de Cristo. Eles batizaram a data de Pessach ( de onde vem a palavra "Páscoa"}, que quer dizer "passagem". Passagem do povo hebreu para uma nova vida, para a liberdade, após muitos anos como escravos no Egito. É o que os judeus comemoram até hoje. Existe ainda uma lenda para explicar a escolha do ovo como símbolo na nossa festa: Simão, o cirineu que ajudou Cristo a carregar a cruz até o calvário, era um vendedor de ovos ( de galinha, claro). Depois da crucificação, Simão voltou para casa e encontrou os ovos milagrosamente coloridos, feito um arco-íris. Mas, após a morte de Cristo, passaram-se pelo menos cinco séculos até o ovo simbolizar sua ressurreição. Segundo uma das várias interpretações a respeito da história da Páscoa, ele só se tomou uma marca registrada da festa cristã a partir da Idade Média. Surgiu como uma espécie de trote piedoso dos ruidosos estudantes da Universidade de Paris no século XIll. Depois de cantar salmos de louvor à data, os jovens saíam em procissão colhendo ovos – na época, trocavam-se outros presentes, mas os ovos eram os que faziam maior sucesso. Tingidos de vermelho ou azul, cores da bandeira da França, eram distribuídos aos amigos, vizinhos e parentes. Só 500 anos depois, no século XVIII, os ovos se tomariam o símbolo oficial da Páscoa cristã, adotado pela Igreja. A quem pertenciam os ovos de então, se à pata ou à galinha, a história não registra. De chocolate é que não eram, pois essa delícia estava longe de ser fabricada. Em compensação, na Rússia, a matéria-prima de certos ovos não deixava nada a desejar. O último czar russo, Nicolau II (1895-1917), tinha o hábito de oferecer a seus reais parentes ovos três vezes maiores que os de galinha. Na verdade, tratava-se de enormes pedras preciosas em lapidação oval. Ninguém sabe com certeza quem (e em que momento dos 100 anos seguintes) teve a idéia de fazer doces em forma de ovos. Mas sabe-se que, nos primeiros tempos, eram branquinhos de puro açúcar-cande. Foi por volta de 1830 que escureceram para valer, quando a indústria do chocolate surgiu na Europa. A evolução rápida e o refinamento atingiram o auge na década seguinte – já em 1840 apareciam ovos gigantescos e superdecorados. Nada comparáveis, porém, a um que talentosos confeiteiros ingleses fabricaram em 1982: psando 3.430 kg, entrou para o Livro Guiness dos Recor des como o maior ovo da história. Para nós, brasileiros, os ovos de Páscoa chegaram no começo deste século. O costume foi-nos apresentado pelo alemães que se instalaram na cidade de Perdões, no Rio Grande do Sul, entre 1913 e 1920. A novidade só poderia mesmo fazer o maior sucesso; afinal o Brasil tem a chamada "vocação" para o chocolate. Somos hoje o 8º maior produtor do mundo. Pode-se dizer, portanto, que os alemães foram o nosso coelho da Páscoa, ao trazer sua deliciosa tradição para cá. O que nos leva a mais uma aparente incoerência: de onde surgiu o coelho? Por que a galinha bota o ovo e logo um coelho paga o pato? A razão é simples, e até bastante coerente: nós, latinos, assimilamos dos anglo-saxões a representação do coelho como símbolo de vida e fertilidade. Pensando bem, que outro bicho poderia dar conta de uma produção tão grande? Fonte.: Revista NOVA nº 53, de Março de 1990. |